30 de mai. de 2026

Uma grande ideia e um pequeno problema

Charutos são mal-educados, o cachimbo me conquistou — e bom fumo não se acha por aqui. A solução? Plantar o meu próprio tabaco. Uma grande ideia e, claro, um pequeno problema.

Uma grande ideia e um pequeno problema

Uma grande ideia e um pequeno problema

Quem foi a primeira pessoa que olhou pra um pé de tabaco e pensou "vou fumar isso aí" kkkkk? Será que tentou fumar alguma outra coisa antes? E como será que chegou à conclusão de que aquilo era gostoso?

O charuto da gaveta

Eu sempre tive essa curiosidade. Certa vez, meu pai — o Sr. Manieri — comprou um charuto pro meu avô, o Manieri Senior, em uma das nossas viagens pelo Brasil, só de recordação. Meu avô guardou aquele charuto numa gaveta ao lado do computador, na casa dele. Computador esse em que eu passava horas jogando: com uma internet de alguns K bits, sobrava tempo de sobra pra fuçar nas coisas dos meus avós e, de vez em quando, cheirar o charuto esquecido ali na gaveta.

É uma pena que eu não me lembre da marca daquele charuto. Toda vez que ia lá, dedicava alguns segundos a me imaginar fumando ele. Charuto a frio tem um cheiro fascinante. Mas, sinceramente, fumar charuto — mesmo os caros que vim a conhecer depois de mais velho — não é gostoso. Ou, pelo menos, nunca teve prazer real envolvido quando eu fumava.

Exceto pela primeira vez.

Ah, aquele primeiro charuto.

Um Talvis, o charuto mais barato que se podia encontrar numa adega de bebidas perto de casa. Lembro do sabor, e lembro da sensação de fazer algo que me era proibido — não pela lei do estado, mas pela lei dos Manieri.

Charutos são mal-educados

Aquela fumaça, kkkkk...

Isso me faz pensar, hoje, que o mais importante não é o valor das coisas.

Já fumei charutos cubanos que foram terríveis pro meu paladar. Mas aquele Talvis de cinco reais, ah, esse me trouxe prazer de verdade.

Só que, depois dele, nunca mais senti a mesma coisa.

Charutos são ásperos. São grosseiros com o seu paladar.

E não são exatamente educados com quem está por perto sem estar fumando: invadem o ambiente e forçam todo mundo a gostar deles ou a se retirar.

Não acho que isso combina comigo.

Prefiro ser gentil. Prefiro ser educado.

Procurei algumas vezes por charutos mais amigáveis. O único que quase me conquistou foi um Joya de Nicaragua. Mas, ainda assim, áspero demais pra mim.

O cachimbo de cinco reais

Eu gosto de paz.

Gosto de contemplar o pôr do sol. Gosto de risadas e licores. Gosto de flores e sorrisos.

Gosto do que a vida tem de mais belo a oferecer.

Certo dia, perdido nos meus pensamentos, me lembrei de uma época em que, ainda jovem e descobrindo o mundo com apenas quinze reais no bolso, fui até uma tabacaria no centro da minha cidade e comprei um cachimbo de cinco reais e um blend de cereja kkkkk.

Vi uns vídeos, peguei uma colher de sobremesa da Sra. Manieri pra improvisar uma ferramenta kkkkk... e foi horrível.

Meu Deus, que blend péssimo.

Me deu dor de cabeça.

Mas...

E se, dessa vez, eu tentasse algo melhor?

Ora, eu já tinha torrado mais reais em charutos do que tenho coragem de admitir. Alguns que nem cheguei a fumar, porque a Sra. Manieri jogou fora — mas isso é outra história kkkkk.

Então, por que não dar mais uma chance ao cachimbo?

E foi o que eu fiz.

Visitei sites, pesquisei e comprei um belo de um cachimbo, com piteira de chifre e tudo. Comprei um blend decente que, mesmo se eu juntasse tudo o que me sobrava por um ano inteiro na época da faculdade, não daria pra fumar.

E foi assim, numa tarde de sexta-feira, depois de um dia de trabalho, que me sentei na varanda do meu prédio e pude sentir de novo aquela sensação.

Aquele prazer.

Aquela calma.

A maciez da fumaça aveludada de um cachimbo jovem sendo amaciado, e de um fumo velho sendo queimado.

Que alegria.

Que maravilha.

Foi mágico.

A fumaça me abraçou. O cheiro de mel queimado no ar. Gentil. Sem queimar a boca. Sem aspereza. Apenas pequenos beijos nas minhas papilas gustativas.

Pensei que aquilo nunca mais fosse acontecer.

Achei que tinha caído na armadilha da primeira tragada — que a próxima seria péssima, que eu nunca conseguiria reproduzir aquilo.

Mas, pra minha felicidade, me enganei.

A segunda fumada foi melhor que a primeira.

Eu já tinha aprendido a respeitar o tempo do cachimbo.

Sem pressa.

Sem compromisso.

Só aproveitando tudo o que dava pra aproveitar.

O pequeno problema

Nas semanas seguintes, eu escapava entre uma tarefa e outra do trabalho pra procurar blends, experimentar sabores novos.

Mas, pra minha decepção, no meu país o cachimbo é visto como antiquado, velho e, às vezes, até ligado a religiões esotéricas.

O fumo que se encontra por aqui não tem o que eu procuro.

Não tem muita profundidade.

Quem fuma, fuma pra aliviar.

Fuma porque precisa, não porque quer.

Só que a gente também precisa comer, e nem por isso a comida tem que ser sem graça.

Aliás, outro dos meus prazeres é justamente cozinhar algo novo — algo tão saboroso que eu nunca tinha provado antes. Algo autêntico. Algo que ninguém experimentou.

Estou sempre atrás daquela sensação de comer chocolate pela primeira vez.

De fumar o primeiro charuto.

De provar o primeiro licor.

Mas, com o cachimbo, isso não era possível.

A grande ideia

Depois de uns dias frustrado, conversei com a minha esposa, a Sra. Manieri.

E, como sempre — e que sorte a minha — ela topou.

Vamos plantar tabaco.

Vamos plantar nossos próprios pés de tabaco para que eu possa, com as minhas próprias mãos, produzir minhas folhas, meus blends e meus sabores.

Sem medo de arriscar.

Sem medo de errar.

Produzir, para minha própria satisfação, um tabaco tão gentil quanto o toque de uma mão que conforta quando a gente se machuca.

E assim começa a minha jornada.

Daqui pra frente, não sei o que vai ser.

Mas espero que seja empolgante, entusiasmante e aventuresco.

Tão empolgante quanto misturar azeite, castanhas e manjericão e descobrir que pesto é simplesmente fantástico.

A você, meu querido leitor, agradeço por ler meu relato e pela paciência.

Fim.

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